terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Amanhã quemsabe

O vôo do elefante

As palavras brotam em mim. Elas surgem e se criam como um elefante que tivesse a capacidade de voar. São grandes e pesadas, mas conseguem flutuar;
Eu sei que elas surgem aos borbotões como se eu estivesse " recebendo santo" , como se diz. Elas jorram nos meus dedos e se alongam em minha cabeça, saindo pelos meus olhos. É estranho vê-las passarem assim pelo meu corpo e repousarem alhures como se eu não tivesse nada a ver com isso. É estranho aintimidade que elas têm com meu corpo e a falta de respeito que demonstram jorrando assim, inconsequentes, como se eu não fosse nada e elas vivessem e se criassem assim independentes, sozinhas e acompanhadas. É estranho vê-las se jogarem no meu prato, sem darem tempo de eu me municiar de garfo, toalha colher e serem servidas alí, para outros, sem se incomodarem comigo. Para mim as palavras são assim: quixotesqueanas, com jeito de Sancho Pança e sonhadoras como o poeta da última flor do Lácio. Não as vejo ponderadas mas sim cauterizadoras e cauterizadas, mordazes e mordidas.... estranhas e de uma certa forma, como se fossem minhas conhecidas a passearem em minhas entranhas com uma intimidade indesejada. As palavras que saem de mim não são minhas. Elas, na realidade, vem do espaço, qual estrelas tombadas, brilham em minha mente e reluzem no meu interno, transformando entranhas em coração. Minhas palavras voam e rastejam, sobram e escasseiam ao mesmo tempo, buscando reagrupar-se novamente e formando sombras e sobras, esqueletos e perfis medonhos e estranhamente belos. Quero agarrá-las, manipulá-las, mas elas não se deixam pegar. Rasteiras e sombrias, reluzentes e melodiosas, cortam meus espaços e habitam em minhas ancas, grandiloquentes. Realmente, me sinto impotente diante delas que avançam todos os meus sinais e se tornam independentes, apesar de minhas resistências . Me comovem e me deprimem, me impulsionam e se beijam ardorosamente dentro de mim, sensuais e voluptuosas. Às vezes habitam várias gavetas e caixas enfeitadas, decoradas, no meu coração e o derrubam e batem nele, e o socam, e o deixam inconsciente para depois dizerem que o amam, o amam e sempre o irão amar. São assim, minhas palavras e não sei porque as chamo de minhas se não me pertencem. Mas termino por conformar-me a esse destino ao qual a poesia me destina e sou vencida em depositá-las na tela do computador, falastronas e ferinas. Ah! São minhas essas palavras? Tânia

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